Aurora boreal e índice Kp: o que se vê de Portugal e para onde viajar

Em Portugal a aurora boreal é uma raridade: segundo as nossas estimativas, o Porto e Lisboa ficam fora até da escala Kp, que termina em 9. Só uma tempestade extraordinária, como a de maio de 2024, a traz até aqui. Explicamos o que significa o Kp e onde vale mesmo a pena procurá-la.

Marcin Fierka
Marcin FierkaPublicado: 7 de outubro de 2026
Aurora boreal sobre um fiorde norueguês e uma cabana vermelha

Porque é que em Portugal quase nunca se vê a aurora

A aurora surge quando partículas carregadas vindas do Sol chocam com a alta atmosfera. Quase sempre isso acontece num anel à volta do polo magnético, a chamada oval auroral, que passa pelo norte da Escandinávia, pela Islândia, pelo Canadá e pelo Alasca. Quando o Sol lança na direção da Terra uma grande nuvem de plasma, o campo magnético terrestre é sacudido com força e a oval alarga-se em direção ao equador. É assim que a aurora chega por vezes a Londres, a Berlim ou até a Paris.

Para chegar a Portugal teria de descer muito mais. O polo magnético fica sobre o norte do Canadá, por isso a Europa está mais longe da aurora do que a América do Norte à mesma latitude, e Portugal fica no extremo sudoeste da Europa.

A força dessa perturbação mede-se com o índice Kp.

O índice Kp em resumo

O Kp vai de 0 a 9. Entre 0 e 3 o campo magnético está calmo; a partir de 5 já se fala em tempestade geomagnética. A agência norte-americana de meteorologia espacial, a NOAA, divide as tempestades em cinco níveis:

Kp Nível da tempestade O que significa para a aurora
5 G1, fraca aurora frequente em latitudes altas
6 G2, moderada visível até cerca de 55° de latitude geomagnética
7 G3, forte visível até cerca de 50° de latitude geomagnética
8 G4, severa visível até cerca de 45° de latitude geomagnética
9 G5, extrema visível até cerca de 40° de latitude geomagnética

A latitude geomagnética não é a do mapa, porque se mede em relação ao polo magnético. Por isso, segundo as nossas estimativas, Nova Iorque precisa de Kp 7,5, enquanto o Porto, praticamente à mesma latitude, já fica fora da escala.

Que Kp seria preciso no Porto e em Lisboa

O nosso modelo calcula que Kp é preciso para a aurora aparecer baixa no horizonte norte de cada cidade. Como referência, em Londres dá cerca de Kp 5,5, em Paris 7 e em Munique 8. Em Portugal o resultado já não cabe na escala:

  • Porto: 9,95, logo acima do máximo,
  • Lisboa: 11,1.

Como o Kp nunca passa de 9, estes valores são teóricos. Significam que nem uma tempestade G5 qualquer chega: é preciso uma extraordinária, como a de maio de 2024. E mesmo assim o mais comum é um brilho rosado ou avermelhado, baixo no horizonte, que a câmara do telemóvel apanha muito melhor do que o olho.

No Brasil é ainda mais difícil: para São Paulo o modelo dá 24,63 e para o Rio de Janeiro 24,83, por isso aí vê-la é praticamente impossível.

Para onde viajar para ver a aurora e que Kp é preciso lá

Para ver uma aurora a sério, verde, em movimento e alta no céu, é preciso ir procurá-la debaixo da oval auroral. Segundo as nossas estimativas:

  • Tromsø (norte da Noruega): Kp 0,
  • Reykjavík (Islândia): Kp 0,
  • Rovaniemi (Lapónia finlandesa): Kp 0,5.

Kp 0 significa que ali não é preciso tempestade nenhuma: com o campo magnético calmo a aurora já pode aparecer. Nesses destinos quem decide a noite são as nuvens e a escuridão: um Kp 2 com céu limpo vale muito mais do que um Kp 6 com o céu tapado.

A época conta tanto como o destino. No fim de junho não chega a escurecer em nenhum dos três, e em Tromsø o Sol nem sequer se põe. A temporada da aurora vai do outono à primavera. Em pleno inverno, pelo contrário, chega a noite polar e em Tromsø o Sol não nasce.

Na página de cada destino, como a de Tromsø, tem o Kp ao vivo ao lado do valor necessário nesse lugar.

Como ler a previsão

A NOAA publica uma previsão do Kp a três dias, que pode consultar na nossa página da aurora junto com o Kp atual e a oval auroral ao vivo. Algumas regras que evitam muitas desilusões:

  • A previsão é incerta. A nuvem de plasma demora dias a chegar à Terra e a sua força real só se conhece quando chega. Um Kp 7 previsto pode ficar-se por 5 ou subir para 8.
  • Só conta a noite. Confirme que os valores altos caem nas horas de escuridão do lugar onde está.
  • As nuvens anulam tudo. Nem com Kp 8 se vê nada debaixo de um céu encoberto. Veja o mapa de nuvens ao vivo.
  • A Lua atrapalha. Com lua cheia, uma aurora fraca perde-se no céu claro. A fase da Lua de hoje está em O céu hoje.

Onde e como olhar

  1. Afaste-se das luzes. A iluminação pública apaga uma aurora fraca. Na Lapónia basta sair da vila; em Portugal procure um céu escuro a sério, na serra ou no interior, longe das cidades.
  2. Procure um horizonte aberto a norte. Em Portugal, se aparecer, a aurora fica baixa no horizonte norte. Em Tromsø ou em Rovaniemi, pelo contrário, pode atravessar o céu inteiro, por isso olhe também para cima.
  3. Dê tempo aos olhos. A visão noturna demora bastante a chegar ao máximo, por isso evite olhar para o telemóvel.
  4. Tire uma fotografia com o telemóvel. O modo noturno, com alguns segundos de exposição, mostra cores que o olho ainda não distingue. Muitas vezes é a fotografia que dá o primeiro sinal de que a aurora já lá está.
  5. Tenha paciência. A aurora chega em ondas. Um céu tranquilo pode encher-se de colunas brilhantes numa questão de minutos.

Maio de 2024: a noite em que Portugal viu a aurora

Entre 10 e 11 de maio de 2024 chegou à Terra uma tempestade do nível máximo, G5 ou Kp 9. Segundo o USGS, a tempestade G5 anterior tinha acontecido a 31 de outubro de 2003. Na noite de sexta-feira, 10 de maio, a aurora apareceu nos céus portugueses em tons de roxo e rosa. O Observador listou fotografias tiradas em Chaves e Vila Pouca de Aguiar, Bragança, Viseu, Seia e Celorico da Beira, Condeixa, Santarém e Portalegre. Um entusiasta de meteorologia citado pelo jornal lembrou que a última grande aurora em Portugal tinha sido a 25 de janeiro de 1938, conhecida apenas por relatos.

Encaixa no nosso modelo: foi precisa uma tempestade fora do comum, e o que se viu foi sobretudo um brilho colorido baixo no céu, muito bem apanhado pelas câmaras.

Noites assim são raras, mas em outubro de 2024 a NASA e a NOAA anunciaram que o Sol tinha entrado no período de máximo do seu ciclo de 11 anos. Nesta fase as tempestades fortes são mais frequentes do que o normal, por isso vale a pena ter a previsão à mão, sobretudo se está a pensar numa viagem ao norte da Europa.

Veja ao vivo

FAQ

Dá para ver a aurora boreal em Portugal?

Muito raramente. Segundo as nossas estimativas, no Porto e em Lisboa seria preciso uma tempestade mais forte do que o máximo da escala Kp. Só acontece em tempestades extraordinárias como a de 10-11 de maio de 2024, e quase sempre como um brilho rosado ou arroxeado baixo no horizonte, que se vê melhor nas fotografias do que a olho nu.

Que Kp é preciso para ver a aurora?

Depende da latitude geomagnética. Segundo as nossas estimativas, em Tromsø e em Reykjavík basta Kp 0 e em Rovaniemi Kp 0,5, ou seja, a aurora pode aparecer com o campo magnético calmo. Em Londres é preciso cerca de Kp 5,5, em Paris 7, e no Porto nem Kp 9 chega em condições normais.

E no Brasil, dá para ver a aurora?

Na prática, não. Para São Paulo e para o Rio de Janeiro o nosso modelo dá valores muito acima da escala Kp, que termina em 9. Quem quer ver uma aurora a partir do Brasil precisa de viajar para latitudes muito mais altas.

Porque é que a aurora parece mais colorida nas fotografias?

Uma aurora fraca parece acinzentada a olho nu, porque no escuro distinguimos mal as cores. A câmara ou o telemóvel (celular) em modo noturno acumulam luz durante vários segundos e mostram os verdes, os vermelhos e os rosas que o olho não apanha.

Fontes

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